Na pacata cidade de Guaratuba, litoral do Paraná, o dia 6 de abril de 1992 marcou o início de um dos casos criminais mais complexos, controversos e longos da história do Brasil. Evandro Ramos Caetano, um menino de apenas seis anos, desapareceu mister...
5 min de leitura26 de fevereiro de 202616 visualizaçõesParaná
Caso Evandro: o caso macabro que chocou o pais com reviravoltas impressionantes
Introdução: O Desaparecimento que Parou o Brasil
Na pacata cidade de Guaratuba, litoral do Paraná, o dia 6 de abril de 1992 marcou o início de um dos casos criminais mais complexos, controversos e longos da história do Brasil. Evandro Ramos Caetano, um menino de apenas seis anos, desapareceu misteriosamente a caminho da escola. O que se seguiu foi uma trama de horror, acusações de sacrifício satânico, confissões obtidas sob tortura e uma batalha judicial que se arrastou por três décadas, deixando uma mancha indelével no sistema de justiça brasileiro.
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O Horror em Guaratuba: Um Corpo e a Tese de Ritual Satânico
Cinco dias após o desaparecimento, o corpo de uma criança foi encontrado em um matagal. Estava em um estado terrível: sem as mãos, cabelos e vísceras, e com o coração e o fígado arrancados. A brutalidade do crime chocou o país e rapidamente deu origem à teoria de que Evandro havia sido vítima de um ritual de magia negra. A imprensa apelidou o caso de "As Bruxas de Guaratuba", e a caça aos culpados começou, em meio a um clima de pânico e histeria coletiva que já se espalhava pelo estado devido a uma onda de desaparecimentos de crianças.
As Acusadas: As "Bruxas" e a Prisão
Em julho de 1992, sete pessoas foram presas e acusadas pelo crime. Entre elas estavam Beatriz Abagge e sua mãe, Celina Abagge, respectivamente filha e esposa do então prefeito de Guaratuba, Aldo Abagge. Também foram presos Osvaldo Marcineiro, Davi dos Santos Soares, Vicente de Paula Ferreira, Francisco Sérgio Cristofolini e Airton Bardelli dos Santos. A acusação sustentava que eles haviam sequestrado e sacrificado Evandro em um ritual macabro para obter poder e prosperidade.
Confissões Sob Tortura: A Reviravolta das Fitas
Os acusados confessaram o crime, em detalhes chocantes. No entanto, desde o início, eles alegaram que as confissões foram obtidas sob tortura brutal por parte de policiais. Por décadas, suas alegações foram ignoradas pela justiça. A grande reviravolta veio em 2020, com a divulgação de fitas cassete inéditas pelo jornalista Ivan Mizanzuk, na série de podcast "Projeto Humanos: O Caso Evandro". As gravações, que haviam sido omitidas do processo, continham os áudios das sessões de interrogatório e eram a prova irrefutável da tortura.
"Eu não fiz, eu não fiz, eu não fiz... Ai, meu Deus! Para! Para!" - ouve-se em um dos trechos das fitas, em meio a gritos de dor.
As fitas revelaram um cenário de horror, com os acusados sendo espancados, afogados e submetidos a choques elétricos para que confessassem um crime que não cometeram. A divulgação dos áudios chocou o Brasil e reabriu o caso na justiça e na opinião pública.
O Julgamento Mais Longo e a Anulação das Condenações
O processo do Caso Evandro se tornou o mais longo da história do judiciário paranaense. Foram cinco julgamentos, que resultaram na condenação de Beatriz Abagge, Osvaldo Marcineiro, Davi dos Santos Soares e Vicente de Paula Ferreira. Celina Abagge foi absolvida em um dos júris.
Com a prova da tortura, a defesa dos condenados entrou com um pedido de revisão criminal. Em novembro de 2023, em uma decisão histórica, o Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) anulou as condenações, reconhecendo que as confissões eram ilícitas por terem sido obtidas por meio de tortura. A decisão, confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2025, representou uma vitória para os direitos humanos e uma dura crítica aos abusos cometidos pelo sistema de justiça.
Conclusão: Um Legado de Dor e a Pergunta que Permanece
O Caso Evandro deixou um legado de dor e trauma. Para as vítimas da tortura, foram 30 anos de uma vida marcada pelo estigma de um crime bárbaro que não cometeram. Para a família de Evandro, a dor da perda foi agravada pela incerteza e pela injustiça. E para o Brasil, o caso se tornou um símbolo sombrio da falibilidade do sistema judicial e dos perigos da histeria coletiva.
Até hoje, uma pergunta fundamental permanece sem resposta: se as "Bruxas de Guaratuba" eram inocentes, quem matou Evandro Ramos Caetano? O crime prescreveu, e a verdade sobre o que aconteceu com o menino de seis anos em abril de 1992 pode jamais ser conhecida.